Numa luta constante
entre viver e sobreviver, ser feliz ou parecer, de errar ou acertar, de
certezas ou dúvidas, é inevitável que não colecionemos marcas, cicatrizes e uma
dor que vem e que vai, depende muito de como você está ou pretende estar; ou na
maioria das vezes depende das suas forças entre querer ou fugir dos pensamentos
que insistem em atormentar freqüentemente com perguntas sem respostas, e
imagens sem seqüências, um projeto inacabado, como ruínas abandonadas no passado,
a qual somente você volta. Talvez na esperança que um dia volte a ser como
antes.
Lembranças de um
lugar cheio de vida e hoje tão triste e vazio, escuro e abandonado num lugar
muitas vezes esquecido e de difícil acesso, mas que conseguimos chegar com tal
facilidade que chega a espantar.
Por que sempre
queremos aquilo que não podemos ter, nos tornamos aquilo que nunca imaginamos?
Será isso ruim ou bom? Ou melhor, será que podemos escolher tudo isso?
Nesse momento nada
importa. Apenas os questionamentos, os mesmos que assombram essa visitação a
esse lugar, tão distante e tão íntimo, no âmbito da sua alma.
Um olhar distante que
nos separa da realidade e do irreal, nostalgia sem sentido.
Pensamentos que nos
levam para um lugar aonde, na verdade, jamais saímos.
As paredes já estão
verdes e a natureza já está tomando conta, como pode haver vida num lugar
arruinado?
Vem uma indignação,
como a vida pode estar ali reinando da minha desgraça? Das minhas ruínas? Elas
são minhas somente minhas, e não ter controle disso é simplesmente
atormentador, uma sensação angustiante de impotência mesclada com fracasso.
Então entre as
vidraças quebradas e as frestas do telhado surgem raios de sol que invadem
aquele lugar e interrompem esse momento de reflexão, de indagação profunda a
procura insaciável de respostas e essa luz deixa visível que ainda que
esteja inacabado para mim, para aqueles seres, alguns invisíveis, ela está em
constante transformação. É egoísmo acharmos que as coisas estão sempre erradas,
só porque não estão da maneira como gostaríamos que estivessem. Elas estão
exatamente aonde deveriam estar.
Nós que muitas vezes
não estamos no lugar certo, e assim não entendemos a seqüência da vida, e
ficamos perdidos em fragmentos do tempo, impossibilitando de subir os degraus e
viver novas dimensões.
O problema, é que
muitas vezes até enxergamos o erro, encontramos a resposta, sabemos o que é
certo, mas não queremos abandonar o que já está arruinado, já dizia o velho
ditado que “... o pior cego
é aquele que vê, mas não quer enxergar’. O ser humano ainda que se
diga “desesperançoso” é um ser que não vive nem sobrevive sem esperança. É ela
quem nos impulsiona, nos motiva, se ela acabar, antes disso, nós, já acabamos.
Nossa ruína é quando depositamos nossa esperança em algo errado.
Isso é perigoso, e
muitas vezes um caminho sem volta “em partes”, pois depende se você desejará
retornar, ou ficar eternamente vagando pelas ruínas e perambulando em estradas
sem rumos.
Muitos nesse mundo
estão presos em fragmentos de felicidades perdidas no passado, e alagados por
lágrimas de dores e tristezas, com nuvens de auto julgamentos, e falta de
compaixão com si mesmo, e se alimentam disso. Feitos parasitas. E
esquecem que há um mundo lá fora. Disposto a transformar outras ruínas em
lugares perfeitos!
O segredo, não é
estar num lugar perfeito, e sim querer estar lá.
Você pode muito bem
estar num lugar perfeito, porém sua essência estar presa nas ruínas de um lugar
inacabado, num lugar distante, fechado a visitações e perdido no mapa.
A pior sensação para
um arquiteto é quando vê seu projeto arruinado.
O pior que uma pessoa
pode fazer é desistir de viver novos momentos, conhecer novas pessoas e novos
mundos. Se abdicar de se permitir ser feliz, novamente.
Ainda que em pequenas
porções, como num conta-gotas, ou o como o gotejar do soro que de gota em gota
nos fortalecem, assim funciona como um gotejar
de vida.
Afinal, assim como a
dor não é constante a felicidade também não é.
Porém ambas andam
juntas e em constante harmonia, cada uma em sua vez, com a sua intensidade,
porém com suas particularidades.
Milla Furtado
°º ...As paredes já estão verdes e a natureza já está
tomando conta, como pode haver vida num lugar arruinado? ...º°